segunda-feira, 24 de julho de 2006

Semáforo

Em pé, na esquina da Consolação com a Rego Freitas, estava Letícia. Ela esperava. Esperava a aproximação, o contato. E seria esse o momento de dizer tudo o que precisava ser dito. Ela, em pé naquela esquina, tentava colocar em ordem seus pensamentos, vacilar no que era para ser dito ou na maneira de dizer, seria colocar tudo a perder. Seria perder de vista o homem que sempre esperou e que agora, mais do que nunca, sabia, era amor. Enquanto mergulhava nos pensamentos e sentimentos, em pausa para o mundo, tudo girava ao seu redor. Os carros buzinavam seus gritos de socorro. A Consolação parada com motores roncando as horas de fome; pessoas apressadas, indo e vindo em passos caóticos; a fumaça impregnando narizes alérgicos; o sino da igreja indicando a hora do fim do dia. Letícia parada naquela esquina, olhos fixos num único ponto que desviavam somente para a mudança de cor do semáforo. Cada cor que mudava era um relógio pontuando o momento que se aproximava. Dentro de poucos minutos, ele chegaria e ela diria tudo. Tudo que deveria ter dito desde o primeiro instante, mas lhe faltou coragem. Verde, amarelo, vermelho... O barulho da cidade, cada vez mais alto, e o movimento das ruas, cada vez mais intenso, passavam mudos para ela que estava ali, em pé. O seu olhar não via as coisas na velocidade em que ocorriam e o volume parecia surdo. Eram apenas as cores do semáforo que despertavam sua atenção para o mundo real. Aos poucos a batida de seu coração ia ficando cada vez mais forte e o único som que chegava aos seus ouvidos. Suas mãos estavam trêmulas e o seu corpo em calafrios, misturavam a sensação de medo e prazer. Daqui a poucos minutos ela se entregaria. Entregaria sua alma para uma nova descoberta. Verde, amarelo, vermelho... Dos olhos começaram a brotar pequenas gotas salgadas. Era amor. De repente o andar conhecido a alguns metros do seu corpo. Chegava cada vez mais perto. Ela diria tudo, sem vacilar. Diria tudo. Que bom que havia tomado aquela decisão. Uma decisão importante para tudo que viria daqui por diante. A cidade foi congelando ao seu redor. A cada passo o mundo se desfocava e ele vinha em sua direção. Essa seria a hora! Diria que tem algo muito importante a dizer. Diria. Sem poupá-lo de nenhum detalhe e assim ele estaria livre pra pensar ou agir como quisesse diante da revelação. Diria e tudo seria simples enfim. Diria e ponto. O calor do corpo dele se aproximava como a chegada da primavera que aquece as árvores. Verde, amarelo, vermelho... O ar que respirava era uma vida nova, tinha um sabor novo, um sabor nunca experimentado. Inspirava vida e expirava para o mundo a sua oferenda. Queria que tudo e todos sentissem essa mesma sensação de estar plena naquela esquina. Começou a rir com tanta graça que as pessoas que passavam por ela se admiravam e sorriam no meio do caos cinzento. Ele se aproximava e ela ria e ria e ria. Seus corpos se comunicaram finalmente e ela num surto delicioso de prazer o admirava, o observava, o olhava infinitamente e ele sorria sem entender o que estava acontecendo naquele fragmento de instante eterno. De seus olhos surgiu mais uma daquelas gotas salgadas e profundamente em silêncio, pois as palavras... As palavras! O semáforo continuava com sua dança de cores e seus olhos se tocavam e foi então que ela percebeu: dos olhos dele também escorriam gotas que tocavam uma boca em sorriso. As palavras! Vermelho, amarelo, VERDE... Os carros agora transitavam livremente pela Consolação. As ruas estavam livres e o sinal Verde! Nada precisou ser dito.

Cristiane Urbinatti
São Paulo, 10/2004

segunda-feira, 10 de julho de 2006

O Canto de Adélia

Perdidas no centro da cidade de São Paulo, começo de noite do dia 29/06, eu e minha amiga Tatis procurávamos o Sesc Carmo. Estação Sé onde tudo pode acontecer... O evento esperado: Encontro com a Poetisa Adélia Prado.
Entramos em contato com os textos desta encantadora mulher ao criarmos o espetáculo Orfandade para a Cia. Polivox. Suas palavras são um encontro com o passado e o contato com o cotidiano pueril e poético.
Depois de algumas informações equivocadas chegamos ao prédio do Sesc e ansiosas por conhecer esta mulher que nos acompanhou anonimamente durante mais de um ano de processo criativo. Rindo de nós mesmas, estávamos eu e Tatis procurando a sala de apresentação. Entramos no pequeno e aconchegante espaço da biblioteca e tomamos nossa posição: segunda fileira ao centro (pois a primeira já estava tomada). A sala foi ficando lotada de adoradores da boa literatura. Todos agitados com a oportunidade do encontro.
O relógio anunciou o momento, às 19 horas. Adélia Prado entra seguida de alguns rapazes bem vestidos. Ela entra com uma vivacidade imperial que nada lembra seus 70 anos de idade completados no fim do ano passado. Uma senhora linda, elegante e cativante sentou-se diante de todos os olhares admirados de leitores e fãs.
Após o atraso de um dos rapazes, o início. Fernando Araújo (violão), Carlos Ernest (oboé), Mauro Rodrigues (flauta e trilha sonora) e Cláudio Urgel (violoncelo) deram os primeiros acordes para a agradável noite que ganhava um sabor inestimável. Até que as palavras de Adélia começaram a ecoar pelo pequeno espaço, na voz forte da própria autora. Uma hora e meia se passaram com a delicadeza deste canto de Adélia Prado que nos transportou para lugares semelhantes aos vividos pela poetisa em sua Divinópolis. Lugares que se escondem dentro de nossos corações, lembranças que nos alimentam em nossa trajetória, histórias que ficaram em algum canto de nossos caminhos passados e a ânsia em vivenciar amores que surgem em seus poemas.
Ao fim, formou-se uma fila para os autógrafos e lá estava ela, receptiva e acolhedora com todos que se aproximavam de olhos lacrimejando, extasiados pela proximidade com a aquela que nos fez emocionar.
Eu e Tatis fomos as últimas a abordá-la e a agradecê-la. Em nenhum momento foi displicente com alguém. Recebeu a todos com carinho e alegria, observada pelo olhar e a presença forte de seu marido, Zé Freitas. Ficamos encantados com a forma como ela se doou a noite toda e o prazer que existia no modo como se conectava com as pessoas.
Não existe nome mais propício para a cidade de onde veio esta que encanta com suas palavras. Divinópolis nos presenteou com uma diva. Diva, palavra formada com as letras da palavra Vida. Foi o que vimos hoje, uma perfeita comunhão de vida, com a divina presença do amor. Agradeço ao universo pela oportunidade do encontro com a divina diva de Divinópolis, Adélia Prado.

Neurolinguística

"Quando ele me disse
ô linda,
pareces uma rainha,
fui ao cúmice do ápice
mas segurei meu desmaio.
Aos sessenta anos de idade,
vinte de casta viuvez,
quero estar bem acordada,
caso ele fale outra vez."

(Adélia Prado - Oráculo de Maio)


Foto encontrada na internet