quarta-feira, 6 de setembro de 2006

Chuva

Não houve briga, discussão, ofensas. Não se ouviu uma palavra. Mas naquele instante, em que o silêncio era mais alto do que o som da chuva: a separação. Seus olhares buscavam o encontro, só que seus corações não conseguiam ouvir. A distância ocupava o seu lugar no pódio: em pé diante da janela, acolhida pela cortina vermelha do Espaço Café, ela via a imagem dele ali em frente, parado, olhando pra ela e banhado pela chuva. Ele escorria por dentro, mas isso ela não viu.

As gotas que se derretiam pelo vidro tentaram limpar o vazio que preenchia os segundos, mas conseguiram apenas desfigurar ainda mais aquele cenário. Era chuva ou lágrima que brotava de seus corpos?

A distância aumentava a cada passo e a cada esquina o ar propagava o pedido de socorro. Estavam em seus quartos, deitados em suas camas, quando o lamento da chuva os despertou de vez da tentativa de dormir e de acordar de um sonho absurdo. A chuva batia em suas janelas sussurrando que aquilo fora uma bobagem passageira. E o que os ensurdeciam eram seus corações afogados pela mágoa, pelo medo, pela incerteza. Eles é que choviam. Estavam tão molhados quanto as ruas que os separavam. Ah, se pudessem se ver neste momento! Descobririam o quanto são amados! Mas sabem apenas que amam. Amam e amam e... Eu te amo... Como dizer isso sem trair o verdadeiro sentido? Sem tornar menor aquilo que os consumia? Precisavam se tocar. “Eu te amo é um acorde importante pra ser cantado com atitudes supérfluas”. Ambos pensavam a mesma coisa, ambos aprenderam isso da mesma forma. Amando um ao outro.

Amanheceu, mas para ambos não existira o tempo, só aquilo que os mantiveram acordados. E na rua úmida de salivas, na encruzilhada se encontraram. Aquelas gotas, que sussurraram a noite toda, os levaram até ali. Entraram no Espaço Café, aquele das cortinas vermelhas, e se perceberam. Sentiram-se. Souberam em segredo como havia sido aquela noite. Sorriram um para o outro concordando suas agonias infantis. Concordando que tiveram medo do que é mais profundo.

Eu te amo! Eu também te amo! Nenhuma palavra foi dita, não precisava. Aprenderam a dizer sem palavras. Que bom poder confiar no sussurrar da chuva!

Cristiane Urbinatti
São Paulo, 12/01/05

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